Adoro um bom concerto. Sobretudo se condiz com o nosso estado de espírito.
Hoje apetecia-me relaxar, precisava de um concerto calmo, que me trouxesse a placidez que procurava. Um toque de cetim, um piano em mãos desenhadas para ele, um serão perfeito.
Sendo ao ar livre, os sons virgens que saem do palco misturam-se com a atmosfera e chegam até nós adulterados, com eco, mas conseguimos sempre encontrar o que procuramos. Conseguimos escutar o que queremos escutar.
Num concerto, sentimos a salada de perfumes que o vento colhe ao beijar cada uma das pessoas ali presentes. Imaginamos a personalidade de quem nos rodeia ao esmiuçar aquela mistela, separando os componentes/odores mais evidentes e tentamos analisar, não por preconceito, estereótipo ou seja o que for, mas pela necessidade/curiosidade constante do ser humano em desenvolver e conhecer o que o rodeia. E, por vezes, até na maior das plateias, sentimo-nos sós em tudo. Sentimos que, por muitas pessoas que existam, não há ninguém parecido connosco em certos aspectos (que cada vez nos parecem mais).
Por cada invasão da realidade que se dê através dos nossos olhos, há sempre uma construção mental daquilo que percepcionamos. Para cada pessoa, cada coisa tem o seu “cheiro”, a sua marca, a sua indistinguível alteração em nós.
Desta forma, a divergência de opiniões surge pelo facto de esta percepção da realidade ser diferente em todas as pessoas (não direi totalmente, porque há factos comuns entre várias pessoas para uma mesma apreensão, mas diverge parcialmente). Qualquer indivíduo se apercebe da veracidade desta afirmação, e, por conseguinte, da infinidade de juízos de valor que daqui advêm, surgindo assim um novo risco – a incompreensão.
De facto, por muito que tentemos explicar o nosso ponto de vista sobre qualquer coisa a qualquer pessoa, essa pessoa ficará sempre apenas com uma ideia do que uma dada realidade representa no nosso intelecto, podendo até dizer “Sim, estou a ver”, quando, na verdade, não está. O que acontece nestes casos é a compreensão de que o nosso ponto de vista diverge, mas a averiguação do que visualiza cada um de nós é impossível.
Há dias em que me apercebo, em crescendo, de que as pessoas que, respeitante às minhas opiniões/medos/experiências/percepções, afirmam “Estou a perceber”, na realidade não estão. Tenho sempre receio de cair em vaidade ou narcisismo por afirmar esta constante incompreensão em tudo, mas estou quase certo disto, há pensamentos que tento constantemente explicar, exteriorizar, traduzir, explicar, mas nunca adianta.
Quando passamos por isto das primeiras vezes, compreendemos o que se quer dizer quando há necessidade de “estar sozinho”. Na verdade, o que existe é um desejo de falar com a única pessoa que nos consegue compreender em absolutamente tudo – nós mesmos.E momentos como o de hoje proporcionam isto mesmo. O piano fala connosco, dando-nos o melhor que tem para nos oferecer. A música, que juntamente com o vento, nos abraça, parece sempre dizer aquilo que esperamos ouvir dizer com uma sinceridade que, em 100% dos casos, não existe – “Eu percebo-te”.
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